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ANEMIA INFECCIOSA EQUÍDEA - AIE


A anemia infecciosa equídea (AIE) é uma doença viral persistente (silenciosa) de distribuição mundial, conhecida vulgarmente como “Febre dos Pântanos”, “AIDS dos Equídeos”, “Bruxa dos Equídeos”, “Mal do Cochilo”, acomete todos os equinos, asininos e muares sem restrição por raça, sexo ou idade, e por não ter cura nem tratamento nem vacina eficaz até o momento, tem sido reconhecida como uma das principais doenças infecciosas desta espécie há mais de 150 anos. Tem como agente causador um RNA vírus, gênero Lentivirus, associado à presença de vetores transmissores do gênero Tabanus, artrópodes que se alimentam de sangue, e pela ausência das boas práticas de manejo (meios iatrogênicos). Caracteriza-se entre outros sintomas por febre intermitente em torno de 41°C, gerando anemia e consequentemente hipóxia, que produz deterioração de múltiplos órgãos nestes animais, depressão, perda de condição física, alterações de comportamento, edemas, às vezes cegueira como único sintoma. Pode produzir doença grave, morte ou o animal permanecer em estado de portador subclínico ao longo da vida, o que ocasiona em grande contagio quando mantido na tropa sem diagnóstico. Acarreta em uma das principais causas de prejuízos (mortalidade, diminuição da capacidade de trabalho e sacrifício dos animais) aos produtores, gerando embargos ao trânsito, além de interferir nos eventos esportivos equestres, assumindo relevância econômica e social considerável.


O Brasil possui o maior rebanho de equinos na América Latina e o terceiro mundial, a indústria do cavalo vem crescendo no país quase 12% ao ano, passando de R$7,5 bilhões de faturamento bruto anual para R$16 bilhões de reais nos últimos anos, crescimento de 113%, superando todos os setores formais da economia brasileira. Ocupa de forma direta cerca de 642,5 mil pessoas, podendo atingir 3,2 milhões de empregos se inclusos os considerados indiretos. A equideocultura vem ganhando espaço no Brasil e revela a verdadeira amplitude econômica e social desta atividade, constatando que o setor envolve mais de 30 segmentos, distribuídos entre insumos, criação e destinação final e tem enorme potencial de crescimento no país, sinalizado por diversos fatores, entre eles o aumento do número de eventos esportivos.


A Bahia detém o maior rebanho de equídeos do país e a equinocultura baiana segue a tendência nacional, com valorização do esporte e lazer. A criação de cavalos de raça, tida como hobby de milionários, é em verdade, atividade de inclusão social e responsável por alterações estruturais nas fazendas e no campo. Dentro da cadeia produtiva, vaquejadas, montarias, exposições, equinoterapia, desenvolvimento genético e segmento comércio são temas de ponta do setor.

Existe o circuito baiano de cavalgadas e no calendário da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Irrigação, Reforma Agrária, Pesca e Aquicultura – SEAGRI constam 32 exposições agropecuárias, sendo 12 com julgamentos ranqueados em nível nacional pelas associações de cavalos.


O Território de Identidade Litoral Sul da Bahia (TILSB), composto por vinte e seis municípios, com limites extremos em Maraú ao norte e Canavieiras ao sul, encontra-se no corredor central da Mata Atlântica, região eminentemente agropecuária, tem na produção de cacau e pecuária, o alicerce da sua economia. Constituído em sua maioria por relevo acidentado, o que dificulta e até impossibilita a mecanização, torna indispensável à utilização de animais de tração “não poluente” como meio de transporte do homem e do cacau (matéria-prima) do interior das propriedades para a sua sede (beneficiamento). Associado ao fator tração explorado pela agricultura, o expressivo rebanho existente utilizado na lida pecuária, esporte e lazer, há a presença de animais de puro sangue (valor zootécnico) em diversos haras e fazendas de criação, com utilização de técnicas de inseminação artificial e transferência de embriões que protege carga genética que não são de fácil mensuração. O agronegócio cavalo engloba um Centro de Tecnologia Veterinária Especializada, programa de transferência de embriões equino e criopreservação de sêmen de garanhão, anda cada vez mais aquecido, em franca expansão, alterando o perfil do criador, que agora direciona o melhoramento genético não só para obtenção de animais puro sangue, como também para modalidades esporte e lazer, devido à ascendência do segmento, do público alvo e da acessibilidade à criação. O retorno ao incremento da produção de cacau abre margem a necessidade, valorização e a renovação das tropas dos muares, o que compõe alternativas de expansão do mercado ao produtor. Há um crescimento acentuado e progressivo de adeptos, criadores/praticantes, a atividades como vaquejadas, cavalgadas e montarias neste território, ocasionando aumento desordenado do número destes eventos, da incidência do trânsito e aglomerações, o que faz crescer a vulnerabilidade sanitária, revelando imprescindibilidade da intensificação das ações profiláticas, de controle e educativas. Existe movimentação comercial a margem da fiscalização e presença de animais soltos nos corredores (estradas vicinais), compondo fatores que influenciam a disseminação da doença nesses municípios. Por outro lado, alberga grande concentração de insetos vetores da AIE (tabanídeos) mutucas, mosca de estábulos, borrachudos, mosquitos e possivelmente Culicoides spp (maruim e mosquito pólvora) que constitui um agravante na exploração desta cultura, o que causa resistência à Defesa Sanitária do estado e do país. Relatórios oficiais da Agência de Defesa Agropecuária da Bahia - ADAB e Superintendência Federal de Agricultura da Bahia, SFA - BA, Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – MAPA, comprovam focos da AIE em 24 dos 26 municípios que compõem este território. Nesse contexto há o dever de implantar consciência das boas práticas de manejo e importância de exames (periódicos) nas propriedades, para trânsito e eventos.


A Bahia apesar do rebanho de equídeos expressivo no país, entretanto não existe um levantamento amplo sobre o status epidemiológico da enfermidade que inclua regiões de grande importância na equideocultura do estado, principalmente no Território de Identidade Sul da Bahia. Sendo assim, estudos que visem à saúde destes animais são de fundamental importância ao desenvolvimento qualitativo dos rebanhos.


Desta forma a Agência de Defesa Agropecuária do Estado da Bahia – ADAB, teve por objetivo realizar levantamento sorológico da doença, inferindo prevalência e distribuição espacial nos municípios de Itapé e Barro Preto, contextualizando duas regiões com perfis diferentes tanto em topografia, vegetação e manejo, sendo uma de pecuária e outra de cacau respectivamente. Em 2007 foram analisadas 42 propriedades sendo 7 positivas (16,66%) e 88 amostras de sangue com 10 positivos (11,36%) em Itapé, e em Barro Preto 17 propriedades com 13 positivas (74,47%) e 84 amostras de sangue com 34 positivas (40,47%), totalizando 59 propriedades amostradas com 20 positivas (33,89%) e 172 animais com 44 positivos (25,58%). Em 2016, foram analisadas 1.880 amostras de soros sanguíneos de equídeos, sem distinção por raça ou sexo, mas com idade superior a seis meses, provenientes de 88 propriedades em Itapé e 84 em Barro Preto. A prevalência obtida em Itapé com perfil pecuário foi de 11.36% e 1.01% e em Barro Preto zona cacaueira de 40.47% e 12.15% respectivamente para propriedades e animais positivos, o que demonstra a presença do vírus da AIE na população equídea deste território de forma endêmica e disseminada, contudo com significativa diferença entre a zona do cacau e pecuária.


Os resultados acenam para a necessidade de criação de um programa de controle regionalizado, apontando talvez para uma flexibilidade quanto ao método diagnóstico-sacrifício, adotando a segregação dos animais positivos a fim de controle e saneamento do rebanho na região cacaueira.



José Muniz de Araújo Júnior


Por: José Muniz de Araújo Júnior, Médico Veterinário, Fiscal Estadual Agropecuário, Msc Defesa Sanitária Animal

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