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A INFLUÊNCIA DA CULTURA MALÊ NA BAHIA

Foto Reprodução


Se na madrugada do dia 25 de janeiro de 1835, os rebeldes mulçumanos tivessem conseguido vencer a milícia do governo da província, tornando vitoriosa a Revolta dos Malês, hoje provavelmente, Salvador seria outra. Em lugar das mais de 300 igrejas, a cidade teria tantas mesquitas quanto os dias do ano no calendário gregoriano. Ao invés do silencio das alvoradas, provavelmente escutaríamos o canto das muezzins chamando para a primeira oração do dia.


No mais, o cenário num provável califado baiano talvez permanecesse o mesmo, com as ruas apinhadas de pessoas vestindo branco nas sextas -feira, a arquitetura com forte influência mourisca, o sincretismo religioso com o animismo africano e o uso dos patuás. A despeito de quantas divindades da água, dos relâmpagos e trovões pudessem continuar cultuando em segredo, os baianos manteriam a crença num Deus único e supremo e as reuniões gastronômicas para marcar o contato social. Enfim, não haveria muitas diferenças do que vimos hoje.


Afinal, por mais que a política dominante e a historia tenham tentado tirar a importância dos muçulmanos e da Revolta dos Malês na formação da sociedade da Bahia, a tradição oral e a cultura incorporada fizeram questão de trazer para o visível a surpreendente herança deixada pelos negros e árabes muçulmanos.


Se não houvesse na terra traços tão marcantes da presença desses povos, restariam ainda os documentos guardados no Arquivo Público do Estado, o bairro da Mouraria, a Rua da Mesquita dos Barris, a Igreja da Lapinha com suas saudações e caracteres árabes, alem das janelas de treliças por onde as mulheres espreitam as ruas sem serem notadas. Aos testemunhos e documentos, poderíamos acrescentar com toda certeza, o comportamento fatalista acerca do destino imutável, o Maktub; o hábito de usar expressões com “como passar a mão pela cabeça”, numa referência clara ao perdão islâmico; o misticismo e a superstição, o ciúme mourisco, caracterizando o comportamento do homem baiano e brasileiro e as tradições sertanejas de apear o boi com o canto, que tanto remete ao canto dos muezzins chamando os fiéis para a oração.


Há ainda as modas de violas e os repentes; o hábito de cobrir a cabeça com xales (costume abandonado na capital, mas até hoje presente nas cidades do interior baiano); a forma sertaneja/mourisca de enfeitar os cavalos, alem das roupas escuras e compridas para se proteger do clima seco em sol inclemente nas zonas mais áridas do estado.


Ao contrário do que poderia fazer crer toda a contra/propaganda do islamismo moderno e o comportamento político-religioso nos países fundamentalista (como o Irã e Afeganistão), o espírito aguerrido das mulheres baianas também possui uma forte contribuição muçulmana.ao longo de toda a história de conquista nos territórios europeus e africanos, as mulheres pertencentes a esses povos deram as suas parcelas de contribuição e marcaram seus nomes para sempre. De tão importantes, algumas delas foram convenientemente esquecidas.


Nas escolas pouco se fala de Luiza Mahim ou Emereciana, que de escrava passou a esposa do alufá Dandará e uma grande estrategista da Revolta dos Malês e a de outras tantas que aconteceram nas áreas vizinhas a Salvador.

A REVOLTA


Alem da umidade e do vento fresco que vinham do mar, havia algo de estranho pairando no ar da cidade da Bahia naquela noite de 24 de janeiro de 1835. era só passar no cais do porto para verificar o intenso movimento dos saveiros que chegavam do recôncavo. Há muitos dias os negros e mulatos mantinham um ar de segredo e uma inegável satisfação se desenhava nos sorrisos, principalmente quando citavam o nome de um maioral, um tal de Ahuna. Mas não há como escapar do destino e, apenas algumas horas depois, o mundo conheceria a mais séria rebelião de escravos urbanos já ocorrida nas Américas. Foram várias horas de enfrentamento com a polícia. No final, os que não conseguiram escapar, foram parar nas prisões ou foram ver de perto a face de Allah. Foram mortos nas forcas, de açoites ou balass que não pararam de pipocar mesmo depois que os líderes - ou alufás como eram conhecidos Elesbão do Carmo (o comerciante Dandará), Dassalú, Manoel Calafate, Pacífico Licutan, Luiz Sanin – receberam a honra de serem fuzilados. Afinal os brancos não conseguiram achar algoz que se prestasse ao papel de enforcar aqueles Malês.


A RESISTÊNCIA SILENCIOSA


Se a rebelião conhecida como a Revolta dos Malês não conseguiu implantar a Kaferintão (terra dos infiéis) o ideal de um califado, a resistência silenciosa, a tradição oral e a cultura fizeram o papel de marcar para sempre esses solos.


Apesar do horror visto naqueles dias, os negros muçulmanos que vieram como escravos ou libertos (os primeiros quase sempre vítimas dos ataques dos piratas que tinham nos muçulmanos que iam a Meca suas principais presas, ou tristes perdedores de conflitos tribais, iniciados nos séculos XVIII e XIX), (entre o sheik Dan Fodio e o rei Yunfa de Gobir) não precisaram fazer muito esforço para deixar a marca de Ala sobre as terras baianas e brasileiras. Antes deles, os próprios brancos portugueses já traziam à bordo de suas naus, navegadores mouros que estiveram na península Ibérica durante 800 anos. Diga-se de passagem, que, durante os oito séculos de ocupação moura, Portugal e Espanha ganharam as rédeas do mundo.


A tolerância religiosa estava mantida, permitindo que judeus, católicos e muçulmanos vivessem em harmonia. Da medicina pela astronomia e os cálculos, que permitiram o início das grandes navegações, tudo apontava para o avanço daqueles povos.


PERFUMES E ABADÁS


Na Bahia, os Malês não representavam a hegemonia religiosa dos escravos estrangeiros, mas tinham um peso significativo uma vez que essa comunidade sabia ler, escrever e tinha uma cultura bem mais ampla do que a de muitos senhores. Segundo o historiador João Reis, entre séculos XVIII e XIX, havia entre os escravos e negros alforriados o culto aos orixás nagôs, o vodu dos jêjes, o catolicismo crioulo e as tradições referentes aos ancestrais angolanos.


“Mesmo os haussás islamizados continuavam ligados ao culto de serus espíritos nativos-bori”, esclarece o autor do livro Rebelião escrava no Brasil: A história do levante dos Malês. Reforçando a afirmação de Reis, a senhora Ivone Silva da Paixão, 75 anos, neta do Alufá Salu (José Maria dos Santos) e sobrinha de um dos fundadores da Sociedade Protetora dos Desvalidos, o malê Gibirilu (Manoel Nascimento da Silva), lembra que, apesar de muçulmano, o avô freqüentemente batia tambor para o os Santos.


O (avô de Albertina Caetano da Conceição, 96 anos), Felisberto da Silva Couve também era um islâmico fervoroso, que preservava o costume de usar o camisão branco (também conhecido com agbadá/abada/abayá), que durante muito tempo serviu para caracterizar os islâmicos e depois do levante de 1835 foi confundido com uma roupa de guerra, e o de não comer carne na sexta-feira, mas que mantinha o hábito do jogo de Ifá (jogo de búzios).” Quando não tinha peixe nem bacalhau em casa, vovô passava as sextas feiras se alimentando só de café e pão”, relembra Albertina.


Na verdade, Felisberto Couve (conhecido como Bambochê) foi quem trouxe o oráculo dos búzios para a Bahia.


A tradição do jogo de adivinhação foi transmitida para o neto Antenor Boaventura, falecido em 1984. Atualmente, os costumes ancestrais do ifá são mantidos pelo tetraneto do malê Juvenal Barreto dos Santos. Em família com a de Ivone da Paixão e Albertina da Conceição, a fé islâmica monoteísta foi convenientemente trocada pelo monoteísmo católico. Ser malê ou islâmico depois de 1835 era uma temeridade. A opção por viver nos solos baianos e brasileiros tinha como paga a clandestinidade do culto religioso.


LAVAGEM DO BONFIM


Mas se a fé não podia ser professada livremente sem o risco da morte brutal, era possível manter os costumes nas festas dos “infiéis”. Nas comemorações do bonfim e nas demais festas de largo, os filhos dos malês lembravam da necessidade de manter o templo do corpo sempre limpo ara orara a Alá. Não foi por acaso que, aos poucos, sem que os brancos percebessem, as típicas baianas puseram a roupa completa com direito a pano da costa, calçolão árabe por baixo das saias e os mules (sapatos também de origem árabe, que têm apenas a parte dos dedos coberta e um pequeno salto) e foram lavar as escadarias do bonfim e derramar água-de-cheiro nos fiéis antes das orações ao Altíssimo. As lavagens são hoje uma marca da cultura baiana. Mas também incorporaram os banhos e os perfumes.


A prataria e o uso de metais brancos não servem mais para identificar os malês, mas estão presentes nos descendentes e nas indumentárias das senhoras que integram a Irmandade da Boa Morte. E o que dizer dos patuás que continuam servindo como fortes protetores do corpo e do espírito contra as armadilhas do mal, hoje não mais com os versos do alcorão, mas com ervas. As saudações de boa sorte também continuam presentes. Para quem não sabe, a expressão Oxalá é uma adaptação do insha Allah que, assim como o termo brasileiro, significa “se Deus quiser”.


O preconceito e a discriminação também se curvaram ante a competência e a ciência islâmica, e um mestre de obras muçulmano ganhou fama e fortuna na Bahia. Manoel Friandes era personalidade notória em Salvador num tempo on de não se via engenheiros. Seu nome batizou o Beco dos Friandes, onde hoje está a travessa Florêncio dos Passos. Apesar da perseguição, o mestre de obras mantinha saudações em árabe nos muros da sua casa, localizada na atual sede da oficina de Frevos e Dobrados, no Tororó.


A desforra muçulmana também foi à mesa. Embora as sextas-feiras não sejam o dia santo dos brasileiros, na Bahia, nesses dias, uma parte significativa da população prefere optar por caruru com xinxim de galinha, as moquecas de peixes e frutos do mar. Tudo vale nessa ceia ancestral, menos a carne vermelha. Nas mesas também foram mantidos antigos rituais, como de unir a gastronomia ao contato social e a definição de negócios.


REBELIÕES DE MULHER


Embora a ideologia dominante tenha tentado apagar a história feita de muita dor, a força de Allah, que tudo pode, mostra que o esquecimento não é possível. A despeito da Revolta dos Malês ser um fato ainda pouco conhecido das novas gerações, o nome de algumas mulheres muçulmanas persiste no imaginário das comunidades baianas, provando que o Islã na Bahia era mais liberal e que estava longe de aderir às posturas radicais de alguns países árabes.


A figura da escrava Emereciana, por exemplo, era reverenciada pelo povo. Como grande general, era ela quem distribuía as condecorações no final de cada batalha, pois muito antes da rebelião conhecida como a Revolta dos Malês, ela e o seu marido Dandará ajudavam a financiar os ataques realizados nas vizinhanças e nas cidades do Recôncavo.


De acordo com o historiador João Reis, naquela época, Salvador era cercada de quilombos e terreiros. Nesses lugares, a vida comunitária africana foi sendo reconstituída e inovada. Nas cidades e nos engenhos, a miséria (favorecida pela crise da monocultura do açúcar, fumo e algodão e as guerras de independência no Brasil e na Bahia) e os maus tratos fomentavam constantemente as revoltas.


Em cada levante, as medidas punitivas se superavam em crueldade, criando os círculos contínuos em que os negros perseguidos organizavam revanches, que por sua vez eram reprimidas pelos governos. Entre os principais perseguidores dos fugitivos estava a figura de João Saldanha da Gama, o impiedosoConde da Ponte, que governou a Bahia por volta de 1807.


VIDA GUERREIRA


O custo de vida era muito alto, havia desemprego e muita fome. A situação na capital era insustentável, pois havia um declarado ódio entre os brasileiros e portugueses. A situação chegou a tal ponto que em 1809, aconteceu um levante em Nazaré das Farinhas que quase foi coroado de êxito, pois independente de credos estavam juntos jêjes, nagôs, haussás e os iorubas. Ao contrário do que aconteceu em 1835, nessa revolta não houve delação. Durante a guerra da independência, a Bahia viveria mais três grandes rebeliões escravas. Assim em 1822 aconteceram as revoltas nos engenhos de Boa Vista, em Itaparica, e na Vila de São Mateus. Os escravos atacaram inclusive as forças brasileiras em Pirajá que sob o comando do general Pierre Labatut, capturaram 50 rebeldes malês.


Mas Emereciana não foi a única. Em 1826, durante a revolta do quilombo de urubus, localizado no atual bairro do Cabula, a guerreira malê Zeferina fez os soldados da milícia tremerem de pavor diante do seu arco e sua flecha. Luiza Mahim também deu a sua contribuição e, hoje, apesar de muitos historiadores acreditarem que seu nome não passa de uma lenda, a tradição oral reforça sua participação durante a noite em que os muçulmanos tentaram tomar Salvador de assalto.


Embora estivesse do lado contrário, outra mulher também desempenhou um papel fundamental na história da Bahia. Guilhermina Rosa de Souza, escrava alforriada e mulher de Domingos Fortunato, foi a verdadeira responsável pelo fracasso da grande rebelião que deveria acontecer durante a festa de Nossa Senhora da Guia (que fazia parte do ciclo de festas do Bonfim) e o Ramadã muçulmano (os escravos da Bahia adotavam a estratégia de realizar rebeliões em dias santos, domingos e feriados). Informada pelo seu marido, que já havia tentado – sem sucesso - comunicar as autoridades das intenções dos malês, Guilhermina foi ao seu antigo senhor contar sobre a movimentação dos negros livres e dos escravos fugidos do recôncavo. Mais uma vez a história foi radicalmente mudada pela interferência feminina.


DESCENDÊNCIA REAL MALÊ.


Quando, em 1876, os espanhóis ocuparam a região de Ossurumin, capturaram o rei, o Igô e sua e sua família e os mandaram como escravos para a Bahia. Chegando a terras brasileiras, a família de nobres foi comprada por um frei capuchinho, do convento da Piedade. O Igô passou a ser chamado por Luis Felisberto da Silva Couve e a sua esposa recebeu o nome de Luiza Hortência Felisberto Couve.


Mais tarde o casal e sua filha Luiza do Espírito Santo (o garoto foi vendido separadamente e se perdeu da família) foram vendidos a uma senhora rica, de prenome Julinha, (parente de família de tradicionais comerciantes tude), que residia na Barra Avenida. Quando a senhora descobriu que o novo escravo era um rei malê, permitiu que lhe fosse dado um tratamento diferenciado e o trabalho de carregador ficou mais leve.


Depois da abolição, o casal foi viver na atual avenida Garibaldi, onde só havia a tradição Árabe das hortas. Para sobreviver, Felisberto mercava comida. Com poucas lembranças do avô (que era muito rígido e não gostava de criança bisbilhoteira), dona Albertina Caetano da Conceição afirma que o avô quase nunca calçava sapatos, mas os levava numa trouxinha branca para qualquer eventualidade.nas sextas-feiras, o malê vestia o seu camisolão branco dentro de casa, entrava no seu quartinho de oração e só saia para fazer as refeições, que algumas vezes eram presenteadas por diversos negros que vinham honrar o sacerdote de Ifá. A tradição dos búzios foi passada para o neto e, agora, o tetraneto do malê, Juvenal Barreto, é quem mantém a herança ancestral.


A despeito da educação rígida e da vida dura para sustentar filhos e netos, dona Albertina conta que av religião era pouco discutida dentro de casa, ainda mais com criança. O avô não fazia questão que os netos seguissem caminhos tão tortuosos e, assim como a família de dona Ivone, preferiu que eles se integrassem à Irmandade do Rosário dos Pretos. Hoje o tetraneto de Felisberto Couve tenta recuperar a história perdida dos seus antepassados e fazer contato com os parentes africanos. Para ele , o esforço é justificado no resgate da auto-estima e no orgulho das tradições.

Miguel Arcanjo

Vice-presidente do Malê Debalê


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

• REIS, João José. Rebelião Escrava no Brasil - A história do levante dos Malês em 1835. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. 680p.

• FREITAS, Décio. A Revolução dos Malês. Porto Alegre: Movimento, 1985.

• FARELLI, Maria Helena. Malês: os Negros Bruxos. São Paulo: Madras, s.d.. 96p.

• Arquivo Público do Estado da Bahia

• Jornal O Correio da Bahia, edição 25/01/2000


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